22/01/2018 Pablo Di Si, presidente da Volkswagen.Foto.Claudio Gatti

“Acreditamos no Brasil no curto, no médio e no longo prazo”

Pablo Di Si, presidente da Volkswagen do Brasil e América Latina, fala sobre as perspectivas da indústria e da empresa nos próximos anos 

Em meio ao ambicioso plano de lançar 20 carros novos e renovados no mercado brasileiro entre 2017 e 2020 (já foram 13), que envolve programa de investimentos de R$ 7 bilhões no mesmo período, foi difícil encontrar tempo na agenda de Pablo Di Si, que desde outubro de 2017 é presidente da Volkswagen Brasil e América Latina. Foi necessário cerca de um ano de negociações, entre datas marcadas e desmarcadas, até que o executivo pudesse atender o pedido de Automotive Business para uma entrevista em um webinar ao vivo, que aconteceu na última segunda-feira, 12, em instalações do WTC Events Center, em São Paulo. 

Em mais um capítulo da série “Conversas com Lideranças” do AB Webinar , durante quase 50 minutos de boa conversa, Di Si falou sobre muitos assuntos relacionados à conjuntura econômica, à indústria automotiva, ao mercado brasileiro, à empresa e como ele vem administrando o crescimento da Volkswagen no País – e até confirmou algumas informações sobre os lançamentos futuros da marca. Abaixo, fizemos um resumo por escrito da entrevista, que também pode ser assistida na íntegra no link ao final do texto. 


Antes de assumir a presidência da Volkswagen no Brasil você já conhecia bem o País. Como foi essa experiência? 
Cheguei [pela primeira vez para morar] no Brasil no ano 2000. Trabalhava para a Kimberly-Clark, no pior momento do País, com o câmbio passando de R$ 1,99 para R$ 4 de um dia para outro, apagão elétrico, fábricas parando quatro horas por dia. Foi um aprendizado. Depois passei 11 anos na FCA, entre Curitiba, Belo Horizonte e Detroit. Em 2014 comecei na Volkswagen da Argentina e em 2017 voltei para o amado Brasil. Cheguei em outubro, então já vão quase dois anos de luta. 

Tem sido muito dura essa luta? 
Foi boa. Gosto de ambientes com muita volatilidade, com desafios. Temos um time fantástico dentro da Volks e sempre é bom você trabalhar muito e depois olhar para trás e ver tudo o que conquistamos ao longo desses dois anos. Não foi fácil, mas dentro desse curto período lançamos 13 dos 20 carros planejados até 2020, tivemos muitas conquistas e perdemos algumas batalhas. Faz parte da vida ganhar e perder. 

Quando você chegou já havia sido iniciado o processo de criação da chamada “Nova Volkswagen”, uma tentativa de humanizar a marca e aproximá-la do público. Na sua avaliação, em que fase está esse processo e o que ainda falta fazer? 
Estamos no início, porque esse conceito nasceu em outubro de 2017 quando lançamos o Polo. Mas vai muito além dos lançamentos. É se aproximar do consumidor, dos funcionários, dos jornalistas, do sindicato, da rede de concessionários, de fornecedores… É uma relação muito mais simples, muito mais humana, muito mais transparente. Acho que fizemos muitos avanços, mas temos ainda muito caminho para percorrer. 

Outro plano que você assumiu logo no início foi o investimento de R$ 7 bilhões, que começou em 2017 e deve ser estendido até o ano que vem. Deste plano fazem parte 20 lançamentos. Você acabou de dizer que 13 já foram feitos. O que falta? 
Temos 20 lançamentos até 2020, são R$ 7 bilhões de reais aqui no Brasil, mais US$ 850 milhões na Argentina até 2021. Acabamos de anunciar na semana passada que vamos lançar o Golf GTE híbrido aqui no Brasil no último trimestre deste ano. Será um piloto para nós. É o primeiro de seis carros elétricos e híbridos que vamos lançar nos próximos cinco anos. Falando especificamente dos 20 lançamentos, desses sete que faltam, a partir do próximo ano já começamos a lançar carros completamente desenvolvidos aqui no Brasil. 

A arquitetura desses carros está sendo planejada e projetada aqui? 
Sim. Temos a plataforma MQB, que é um conceito modular que vem da Alemanha, fazemos muitas clínicas com consumidores aqui do Brasil, do Chile, da Argentina, do Paraguai, da Colômbia, testamos muito os conceitos e desenhos dos carros e as funcionalidades. Não somente desenhamos os carros em 3D e depois na parte física como também toda a eletrônica, toda a parte digital já começou a ser desenhada aqui. 

O T-Cross foi o primeiro utilitário esportivo brasileiro da Volkswagen. Por que demoraram tanto para entrar em um segmento tão atrativo? 

“Chegamos tarde, mas chegamos. Quando se entra depois da onda, como nós, é necessário ter um produto muito superior ao da concorrência. Essa foi a estratégia que seguimos, e o T-Cross ganhou 95% de todos os comparativos na mídia especializada, em termos de espaço, de conforto, de design, de tecnologia, de conectividade.”

E as vendas começaram com bastante sucesso. O T-Cross está indo muito bem… 
Em três meses o carro já o segundo colocado no segmento de SUVs no varejo. Está vendendo bem e também é um aprendizado para nós, que, como nossos concessionários, estamos pegando a forma de vender esse tipo de carro. O time está fazendo um ótimo trabalho. 

O que você pode falar dos lançamentos futuros? No salão passado vimos um conceito de uma picape média-média, chamado Tarok, e também se espera um SUV médio-compacto chamado Tarek. Eles chegarão no ano que vem? 
Vamos por partes. Primeiro o investimento na Argentina, que é para um SUV médio – isso já foi confirmado. Anunciamos em 2017 que será produção argentina e hoje estamos no meio da construção da plataforma e da nova fábrica de pintura. Esse produto vai estar pronto no fim de 2020, início de 2021. E a picape Tarok apresentada no último Salão de São Paulo? 
Essa picape foi um sucesso, tanto que nosso time dos Estados Unidos pediu e nós a levamos para o Salão de Nova York alguns meses atrás. Estamos em fase de clínicas com nossos clientes e ainda não foi definido o estilo final, mas com certeza é um projeto que os consumidores verão em breve. 

Muito se fala a respeito de um carro de entrada, que a Volkswagen sempre teve – e continua tendo com o Gol, mas envelhecido pelo tempo. Você avalia que ainda existe espaço para esse segmento no Brasil? 
É um segmento importante que ao longo do tempo vai continuar tendo um peso relevante. Porém, faço uma reflexão: aqueles que foram para o Salão do Automóvel de São Paulo em outubro do ano passado puderam ver que quase nenhuma marca apresentou um carro-conceito ou lançamento de um carro popular. Isso porque o retorno sobre o investimento é muito baixo. Isso significa que o segmento vai desaparecer? Claro que não. Mas a indústria caminha por outro lado. Nós da Volkswagen vamos ter um carro popular, estamos trabalhando em um projeto, mas não vamos apostar todas as fichas nesse segmento. 

Mas avaliam que ainda é importante estar no segmento de entrada? 
Com certeza! Acho que o Brasil é uma grande pirâmide e 35%, 36% da indústria é dos carros populares. Deve diminuir sua penetração, mas o segmento continuará sendo muito relevante. 

Qual é o futuro do Gol, um ícone da marca? E qual o futuro do Golf, um modelo emblemático globalmente para a Volkswagen, mas que está em um segmento no qual as vendas pararam de crescer? 
O Golf é um ícone da marca, tanto que será nosso primeiro carro híbrido/elétrico/plug-in lançado aqui. As vendas do Gol cresceram 16% este ano versus o ano passado, e a indústria está crescendo 11%. Então o Gol tem o seu lugar e vai continuar tendo. 

Existe algum plano de inclusão da Saveiro na plataforma MQB? 
A Saveiro é um grande carro que vamos continuar produzindo e vendendo, mas a plataforma é completamente diferente. Conceitualmente uma plataforma modular tem um conceito de produção e de desenho diferentes. Até poderia ser feita uma Saveiro em uma plataforma modular, mas teria que ter quase um novo desenho. 

Apesar de todas as dificuldades que o setor enfrenta para exportar, a Volkswagen consegue manter o título de maior exportadora do setor na história. Por que isso acontece? 
A Volkswagen tem uma alma exportadora. Obviamente você não consegue exportar de um dia para outro. Sempre precisa de uma estratégia e um planejamento de longo prazo. O importante para nós é que mesmo que a rentabilidade e o retorno não sejam os melhores, continuaremos com esse espírito exportador, porque algum dia as ineficiências do Brasil irão acabar e nós precisamos conquistar novos mercados. 

Exportações para a África estão no radar? 
No próximo ano vamos começar a exportar para a África. 

De maneira geral a Volkswagen conseguiu se desvencilhar desse mau momento de exportação, mas têm prejuízo para exportar? 
Não que tenha prejuízo… o retorno sobre o investimento não é o melhor. Mas você tem que acreditar no Brasil, e nós acreditamos no Brasil no curto, no médio e no longo prazos. 

Recentemente a Anfavea soltou um “balão de ensaio” para incentivar as exportações, uma proposta para o governo aumentar o porcentual do Reintegra como uma forma de restituir impostos embutidos nas vendas externas. Você avalia que essa medida é boa? 

“A indústria, a Volkswagen, não quer nenhum subsídio. Mas hoje nós exportamos impostos. O ideal seria uma reforma tributária. Mas vai demorar anos ou décadas. Se conseguíssemos reduzir essa cadeia de impostos tão grande, não precisaríamos do Reintegra. Como acredito que não será um processo fácil, acho a medida (de elevar o Reintegra) interessante.”

A crise da exportação brasileira tem muito a ver com a crise econômica de nosso vizinho, a Argentina. Como a crise neste país tem afetado diretamente a operação da Volkswagen no Brasil? 
Sendo uma empresa muito exportadora, obviamente a crise afetou. O mercado argentino caiu 50%. Achávamos que iria cair 40%. Isso vai obrigar paradas de algumas de nossas fábricas [no Brasil] ainda este ano. 

Você espera por uma recuperação econômica na Argentina em qual horizonte? 
Independentemente da política, o contexto da macroeconomia é complexo. A Argentina continua muito exposta à falta de reservas cambiais. Isso não vai ser resolvido de um dia para o outro. Esse é o primeiro problema. O segundo é a inflação. Na Argentina não é possível conter a inflação. Os dois problemas estão relacionados. O Brasil resolveu os dois temas há 20 anos. São assuntos que necessitam de uma década de boas políticas para serem resolvidos. 

Recentemente foram concluídas as negociações em torno do acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia. Isso é um risco ou uma oportunidade para o Brasil? 
Não é simples. Chegou-se a um acordo após 20 anos de negociação. Daqui até 2021 são dois anos para que os parlamentos da União Europeia e os governos dos países do Mercosul aprovem isso. Se tudo for bem-sucedido, isso será aprovado de dois a três anos…Sendo otimista, se aprovar em 2020/2021, haverá um período de sete anos em que o Mercosul vai poder importar 50 mil carros por ano, divididos entre todos os países do bloco – o Brasil vai poder trazer 32 mil carros anualmente com um imposto de importação de 17,5%, ao invés de 35% (alíquota atual). No médio e longo prazos o acordo com União Europeia não irá trazer nenhum impacto para a indústria brasileira. Nós temos de ficar atentos em quais tecnologias vamos desenvolver, porque o flex é um grande produto aqui para a região, e vamos precisar crescer com os elétricos e híbridos também. 

Por falar em plano de longo prazo, desde o início desse ano a indústria automotiva tem uma bússola no Brasil, que se chama Rota 2030, com incentivos e obrigações para o setor nos próximos 15 anos. O programa era necessário? Ele é bom para a indústria? 

“O Rota 2030 é fundamental. Todo programa que incentive pesquisa e desenvolvimento aqui no País é fundamental. Os trabalhos no futuro, em todas as indústrias, vai ser na base de serviços e conhecimento. É fundamental que o Brasil continue desenvolvendo aqui carros e novas tecnologias – não só o desenho do carro, mas a parte digital –, porque esses trabalhos são o futuro. Estamos no início do processo de automatização, a indústria 4.0. Agora é hora de investir e pegar esses pesquisadores para trabalharem aqui.”

A Volkswagen vai se envolver no negócio de car sharing, o compartilhamento de veículos aqui no Brasil? 
Nós já temos um projeto mundial e estamos estudando a possibilidade de ter um car sharing aqui. Não estou prometendo, mas estamos estudando. 

E a questão da indústria 4.0, que é a digitalização do portão da fábrica para dentro? Como anda esse processo na Volkswagen? 
Em ritmo superacelerado. Em dois anos fizemos uma transformação violenta e estamos no início. Por exemplo, todo o desenho do carro é feito aqui em 3D. A parte de protótipo é aumentada. O que significa isso? Reduzimos em mais de cinco meses o tempo de desenvolvimento do carro. 

Também existe o processo acelerado de digitalização das concessionárias… 
Também acabamos de lançar há alguns meses nossa plataforma de concessionárias digitais. Em sete meses, já temos 120 concessionárias implementadas e até o fim do ano teremos a rede completa. Começamos um piloto para que a venda do carro possa acontecer em casa, no trabalho, no tablete, uma jornada de compra totalmente digital. 

Muita gente no começo deste ano ficou espantada com algumas notícias de grandes montadoras aqui, GM e Ford, dizendo que fabricar carro no Brasil não era algo viável e pensavam em reduzir muito a produção ou até mesmo sair do País. Vendo esse movimento no começo do ano, o que você pensou disso tudo? É mesmo inviável fabricar carro no Brasil se nada mudar? 
Em uma entrevista eu disse que trabalhar no Brasil não é para amadores. Aparecem dez leões por dia e você tem que matar os dez leões, senão eles te comem. Acho que se é viável, se é rentável produzir um carro, tem que ter o investimento certo, estrutura de custos certa, e principalmente a conexão com o consumidor. Porque se nós ficamos distantes do consumidor e produzimos carros não desejados, aí temos um resultado ruim. 

Vem sendo comentado ao longo dos últimos anos que todas as montadoras no Brasil não têm alcançado lucro, estão no vermelho. É o caso também da Volkswagen. Em quanto tempo você avalia que dá para sair dessa? 
Falamos publicamente no ano passado que queríamos chegar a um break even (equilíbrio financeiro|) este ano, como região América Latina. Mas isso foi antes da Argentina… Então ficou mais difícil, mas não tiramos o objetivo, continuamos com a meta de chegar a um break even este ano mesmo que seja muito difícil. E não estamos longe. 

Quais foram as principais medidas que precisaram ser tomadas para recolocar a companhia de volta ao balanço azul? 
Primeiro, o foco no consumidor, velocidade maior nos lançamentos… Estamos no início desse processo. Temos muitos passos para dar a fim de que a empresa seja sustentável. E não é somente lucro, tem que haver o retorno sobre o investimento. Estamos longe disso. 

Sem rentabilidade por alguns anos, como tem sido possível defender novos investimentos junto à direção da companhia? 
Vai muito da credibilidade do time e do país, e nisso temos grandes avanços mesmo sem atingir os nossos objetivos. Se você entrega tudo e vai melhorando a sua situação em relação aos anos passados, vai criando e gerando um clima de confiança entre o conselho mundial e o time. E temos exatamente isso, um clima de confiança. Isso significa que a vida é fácil? Claro que não. Claro que estamos sendo cobrados todos os meses por resultados, alguns meses alcançamos, outros não… 

Como você enxerga as perspectivas da Volkswagen Brasil e América Latina para este ano e para o próximo? 
Temos muitas expectativas positivas para este ano. Estamos melhorando muito a nossa participação no mercado, mudando o portfólio. Eu sinceramente estou esperando um segundo semestre muito melhor do que o primeiro aqui no País. Acho também que a reforma da Previdência será aprovada nos próximos meses e irá trazer muitos investimentos para o Brasil. O ano de 2020 será melhor em relação à oferta de produto, maior proximidade com os consumidores, já teremos quase 100% da rede vendendo on-line… [Em 2020] já estaremos em outro patamar em relação a este ano. Será um ano muito positivo. 

A Volkswagen vem crescendo, já há alguns anos, acima da média do mercado. Este ano vai ser igual? Quanto espera crescer neste ano? 
O mercado acumulado oito meses apresenta 11% de crescimento em relação ao mesmo período do ano passado, e nós estamos quase em 14% de crescimento. Então, estamos 3 pontos melhor. 

A Volkswagen tem algum interesse em buscar ser líder de mercado de novo? 

“Claro que desejamos ser os primeiros. Mas liderança é uma consequência, não um objetivo. Se fazemos o desenho correto com o cliente, o consumidor, com foco em carros com bom estilo, conectados, a um bom preço, a liderança vai ser uma consequência.”

O que você considera mais importante observar para o planejamento para o ano que vem? 
Quando falamos de nosso setor, eu acho que [a evolução da] economia [é o mais importante]. O que olho principalmente é crédito e juros. Porque nessa indústria, vendendo um bem de consumo durável, você precisa de disponibilidade de crédito e uma inadimplência baixa. E o que vejo, quando converso com todos os CEOs dos bancos, é que o crédito continua muito abundante no País e os juros continuam estáveis. Esse é um sinal positivo para o segundo semestre e para 2020. 

Fonte: Portal Automotive Business

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